RIO DE JANEIRO — O papa Francisco afirmou neste domingo, no Vaticano,
que a semana que se inicia deveria ser chamada de "Semana da Juventude"
porque "os jovens serão os protagonistas", em alusão a sua viagem de
sete duas ao Rio de Janeiro a partir desta segunda-feira.
Com esta
visita, o primeiro Papa latino-americano da história tentará
revitalizar a Igreja numa região onde o catolicismo perde terreno há
três décadas.
Na oração do Ângelus celebrada na Praça de São Pedro
neste domingo, falando da janela do terceiro andar do Palácio
Apostólico, o Papa pediu aos milhares de fieis presentes que o
acompanhem "espiritualmente em oração" em sua primeira viagem
apostólica.
"Vejo ali escrito 'Boa Viagem'. Obrigado, obrigado", afirmou o Papa referindo-se a um grande cartaz exibido na multidão.
"Todos
que forem ao Rio querem ouvir Jesus. E querem peguntar a Ele: Jesus,
que devo fazer de minha vida? Qual é o caminho para mim?", afirmou.
E perguntou aos fieis: "Há jovens na praça hoje? Sim? Também eles devem fazer ao Senhor a mesma pergunta".
Este foi o último Ângelus do mês de julho que o Papa reza em Roma, já que o próximo será realizado no Rio de Janeiro.
A
partir desta segunda, o Papa argentino presidirá a Jornada Mundial da
Juventude (JMJ), já chamada de "Woodstock católico", que reunirá cerca
de 1,5 milhão de pessoas vindas principalmente da América do Sul.
=== Sem medo das manifestações ===
O
contacto do Papa com os jovens será sem grandes pompas. Seus atos
improvisados e sua vontade de interagir com suas ovelhas vão colocar à
prova os serviços de segurança, como deve acontecer quando visitar na
quinta-feira a comunidade de Varginha, zona norte do Rio, ou quando
presidir na sexta-feira as 14 estações da Via Crúcis na praia de
Copacabana.
O Papa chega ao Brasil pouco depois das históricas
manifestações que, em junho, levaram às ruas mais de um milhão de
pessoas exigindo melhores serviços públicos, contra a corrupção e os
elevados gastos do Mundial de 2014, e que muitas vezes acabaram
tumultuadas pela violência policial e atos de vandalismo.
Ateus
brasileiros e o grupo Anonymous Rio, um dos organizadores dos protestos
de de junho, também convocaram para esta segunda-feira, o dia da chegada
do pontífice ao Rio, uma manifestação contra o gasto público de 53
milhões de dólares - um terço do orçamento total - que implica a visita
papal e a organização da JMJ no Rio.
Mas o Vaticano não se mostra
preocupado e vários especialistas destacam que a pregação de Francisco
em defesa dos mais necessitados têm muita sintonia com os manifestantes.
--- Evangelho social ---
"Creio
que no Brasil o Papa prosseguirá, aprofundará e esclarecerá seu
Evangelho social. Desde que foi eleito, ele denuncia as novas formas de
escravidão, de exploração, a desigualdade, a irresponsabilidade de
algumas forças sociais", declarou à AFP o vaticanista Marco Politi.
A
América Latina, onde Francisco nasceu e viveu quase toda sua vida, é a
região com mais católicos do mundo, cerca de 40%. No Brasil, são 64,6%
da população, segundo o mais recente censo, de 2010.
Segundo
pesquisa do Instituto Datafolha divulgada neste domingo, 57% da
população brasileira se declara católica, o mais baixo nível histórico
no país cm mais católicos no mundo.
Os evangélicos, por outro
lado, não param de crescer e são mais de 20% da população
latino-americana, apoiado por seu hábil manejo da televisão e das redes
sociais e uma extensa rede de templos onde os fieis têm voz sem
necessidade de serem ordenados sacerdotes.
Relator do documento
final da reunião da Conferência Episcopal Latino-americana em 2007 em
Aparecida, onde enfatizou a necessidade de uma Igreja mais missionária e
próxima de Jesus, Francisco conhece bem o desafio da Igreja católica na
região.
"O selo do papa Francisco no Brasil será o do diálogo, da
abertura, de recuperar o fervor do Evangelho", explicou à AFP Faustino
Teixeira, professor de Ciências da Religião da Universidade Federal de
Juiz de Fora, Minas Gerais.
Segundo Teixeira, a opção do papa por
uma Igreja mais austera e próxima dos pobres "se identifica
profundamente com o horizonte da América Latina e da Teologia da
Libertação", a corrente teológica nascida na região e condenada
severamente nos anos 80 pelo papa João Paulo II (que a considerava
marxista) e com a qual Francisco dá sinais de reconciliação.
Laura Bonilla.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Deixe seu comentário